quarta-feira, 10 de março de 2010

(in)completude


Estamos acostumados com a idéia da falta, da perda e da quase impossibilidade de alcançar desejos e metas por deficiência de recursos, especialmente os internos. Como se o copo nunca ficasse cheio pela falta de líquido para completa-lo. Estar aquém nos inquieta e angustia e todos conhecemos bem esta sensação.
Mas também existe o oposto. Possuir muito mais recursos à oferecer do que a possibilidade de realizá-los ou de alguém disposto a receber. Ter mais líquido do que aquele copo comporta e esse transbordamento significar um triste desperdício. Pode-se pensar em encher outro copo ou guardar, conter para outra ocasião. Mas esse não era o desejo real, aquele manancial de recursos voce ansiava designar àquele fim e não à outro.
Tanto quanto a falta, o que inadequadamente chamemos de excesso, causa angústia, frustação, desamparo. Digo inadequado porque para quem é possuidor desse manancial, não o sente como excesso, apenas como seu repertório. Pode ser criatividade, inteligencia, amorosidade, generosidade entre outras. Ter de conter, reprimir torna-se tarefa muitas vezes insustentável, a causar sofrimento.
Como lidar com essa dor? Assim como a falta busca ser preenchida, esse manancial precisa de um espaço que lhe dê continência. Espaço suficientemente bom. Esperá-lo pacientemente, ao invés de desperdiçar. Ou quem sabe encontrar novas possibilidades de realização. Outros rios por onde possa fluir livremente sem represar tanta potencialidade. Adaptações necessárias, embora frustantes..

terça-feira, 9 de março de 2010

nove


Era madrugada de sexta feira, 04 de maio de 2007. Sentada na janelinha do avião, contemplando a noite escura, pontuada de pequenos amontoados de luzinhas espalhados aqui e alí, de repente se deu conta que somava nove. Era uma velha mania sua, somar os números até sobrar um único inferior a dez. Sua vida era pontuada pelo nove. 4+5+2+0+0+7= 1+8= 9.
Sorriu. Aos 45 anos, 9 de novo, iria finalmente resgatar sua origem.
Essa é uma longa história, a ser contada em capítulos ou episódios diversos. Neste, voltamos apenas 2 meses antes, momento em que, assim, inesperadamente, sua mãe lhe revelara que seu pai biológico não era quem pensava. Mas outro, que conhecera e se apaixonara, sem jamais ter revelado a ninguém. Dele, tudo que sabia era o nome, a cidade em que morava (em outro estado), e uma vaga informação de que tinha um importante trabalho voluntário ligado à doutrina espírita.
Depois daquela conversa, embora tenha tranquilizado a mãe em seu arrependimento, sentiu o chão fugir sob seus pés. Pela quarta vez em sua vida, e esperava fosse a última, tinha uma nova revelação sobre sua origem.
Levou dois meses para processar isso tudo internamente e para contar com a ajuda leal e prestativa de uma amiga, que conseguiu localizar uma pessoa com o mesmo nome que o pai.
Na véspera, preenchida de uma súbita coragem, ligou para o telefone, confirmando tratar-se da mesma pessoa. Comprou a passagem e avisou a mãe, que entrou em pânico, nunca imaginando que aquela filha sempre tão dócil tomasse essa atitude.
E agora, nessas tres horas de viagem, contemplando estrelas, revia toda sua trajetória.
De alguma maneira, parecia haver um sentido, mesmo que desconhecido.
Sentia um turbilhão de emoções: medo, ansiedade, expectativa, alegria, tristeza. Não fazia a menor idéia de como falaria. Como chegar para um homem, que deveria ter cerca de 70 anos e dizer: Boa tarde, eu sou sua filha. Tudo podia acontecer. Podia levar a porta na cara. Podia nem recebê-la.
A única coisa que naquele momento realmente importava é que ela iria enfrentar com coragem a sua verdade, a sua origem. Sem subterfúgios. Sem intermediários. Sem mentiras ou meias verdades. E o que quer que acontecesse seria inteiramente seu.
Seria finalmente dona da sua história.

sobre o amor

O amor é sempre um mistério. É único, singular.
Razões , tais como as entendemos, não explicam e nada dizem sobre o porquê amamos uma pessoa. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, tratando-se de amor adulto e saudável, não é absolutamente gratuito e abnegado, do tipo incondicional, que se sente pelos pais e filhos.
Em uma relação amorosa existe um caldeirão em que se misturam diversos ingredientes e a reciprocidade é a colher que permite a burilação de todos eles. Sem ela, tudo desanda, queima, perde o sabor.
Entre tantas pessoas, dois olhares se cruzam e algo acontece. Pode ser apenas um momento efemero.
Pode ser o início de um encontro, de um namoro, de uma paixão.
E /ou de um grande amor.
Ou de um desencontro, de um engano, de uma decepção. De uma ilusão criada pela sua desesperada ânsia em vestir no sapo as vestes de um príncipe.
Como saber? Serenamente... vivendo, conhecendo, percebendo.
Desbravando esse universo desconhecido em que se constitui o outro e esse novo par do qual voce faz parte. Porque não basta estar atento ao parceiro, mas também a voce, ao que ele te desperta ou não.
Como sabiamente disse Guimarães Rosa: "o real se dispõe é no meio da travessia"
Respeite o tempo. Saboreie a travessia.

além do olhar

Acordou preguiçosa, como todas as manhãs. Permitiu-se ficar mais 10 minutinhos naquela embriaguez saudável, entre sono e vigília. Pensou na vontade que tinha de poder simplesmente ausentar-se de tudo.
-Quem sabe ligo pro chefe e digo que peguei dengue? Mas e se acabar pegando mesmo, afinal estamos numa baita epidemia. Não vai dar pra ter duas vezes...
Voltando do devaneio da fuga, nada a fazer senão levantar e enfrentar o dia.
Banho tomado, engole o copo de leite às pressas e assume o volante do seu pretinho básico, como carinhosamente o chama.
No caminho ao trabalho, parada no semáforo, já impaciente com o atraso que vai lhe causar problemas, assusta-se com um estrondoso barulho. Do outro lado da avenida, no cruzamento, dois carros bateram feio.
À sua volta, alguns buzinavam para que seguisse em frente, apressados como ela.
O jovem rapaz que estava ao lado da sua janela, tentando vender canetas e balas, perguntou à ela, entre assustado e ansioso:
-Será que alguém se machucou?
-Não sei, não dá pra ver. Mas a batida foi forte.
- Vou até lá tentar ajudar.
Detalhe: ele era cego.
E, movendo-se por entre os carros, guiando-se através da bengala nos pneus, lá foi ele.
Ela passou a marcha e seguiu em frente, fazendo uma pequena prece por aquelas pessoas.
Seu dia não foi mais o mesmo depois disso.

segunda-feira, 8 de março de 2010

tempo amigo

Todas as coisas tem seu tempo, e quase sempre não conseguimos entender isso. Queremos que o tempo seja o nosso, enquadrando-o no espaço das nossas aflições e ansiedades. Atropelando tempo atropelamos vida. Violentamos sonhos que poderiam ter sido reais, não fosse a nossa destemperança.
Tempo é aliado não inimigo. É ele que permite a maturação, o desabrochar da verdade.
Porque ao tempo a verdade se rende, se revela, seja qual for a sua cor ou suas vestes. À ele a verdade se desnuda, se entrega irremediavelmente...
As mentiras contadas ao outro e à nossa consciencia não vencem à prova do tempo. Os enganos com os quais nos deixamos iludir são frágeis cristais que os bons ventos temporais fazem derrubar.
Subverter as demandas do tempo é torná-lo sagaz inimigo a devorar vida, sonhos e esperanças.
Este talvez não seja o momento de provar os melhores vinhos, mas de saber como se prepara o solo para colher as melhores e mais saborosas uvas.

morrer


Falar de morte ou do morrer é para a grande maioria das pessoas tão angustiante e tão pavoroso que preferem viver tentando esconder a finitude da vida debaixo do tapete. Afastamos ao máximo essa idéia, criamos hospitais para que funcionem como o tapete, escondendo de nós o que se passa da dor, do medo, da angústia de chegar ao fim. Quando alguém que amamos se encontra neste doloroso processo da chamada doença terminal, ao invés de acolher, negamos a ele o direito de expressar aquilo que sente. Afastamos o mais rapidamente possível qualquer conversa que ameace tomar esse caminho, sob o falso otimismo declaramos que ele ficará bom logo e classificamos como morbidez ou depressão qualquer tentativa de falar da morte, sem sequer nos darmos conta de que na verdade ele fala de vida. Cada vez mais a ciência descobre que o melhor que se pode fazer a uma pessoa em um quadro terminal, é leva-la para casa, para estar próxima dos seus amores e amigos, no seu canto confortável e familiar. Permitir que se possa escutar a sua verdadeira voz, sem a onipotência de achar que tem que ter as respostas, a solução, a cura. Constatar a humana impotência diante da morte abre o espaço necessário à intimidade que nos aproxima na dor. Muito mais confortador é dar continência , é segurar , é oferecer e partilhar colo num abraço amoroso que nenhuma anestesia ou morfina será capaz de substituir. Faça um pequeno exercício mental, coloque-se por alguns instantes nessa condição, no lugar do outro, empatize. E mesmo angustiado por essa idéia, tolere o mal estar. E pense como gostaria de viver seus últimos dias, mesmo limitado ao leito. Aonde estaria, que pessoas estariam ao seu lado. E sobretudo o que gostaria de poder falar, escutar ou mesmo silenciar em paz, sem aquele peso das coisas não ditas por medo. Compreenda que não há nada de errado em chorar junto, em sentir-se triste. A vida nos pede coragem e isso nada tem a ver com endurecer. A coragem vem de entrar em contato com a verdade, seja ela qual for, e nos permitir todos os sentimentos e emoções que ela nos suscita.

perda insana

Um pequeno outdoor, daqueles que se colam em muros, continha o seguinte anúncio: “Perdeu seu amor? Trazemos de volta pra você. Pagamento após resultado. Tel ...”

Se aquele anúncio existe com certeza há demanda.

Como será alguém que busca este tipo de “serviço”? Que se dispõe a pagar para que seja feito um “trabalho” espiritual pra que tenha de volta um amor que partiu. Sou uma ignorante a respeito desses assuntos, não faço a menor idéia de como se realiza isso. E na verdade, prefiro continuar assim.

O que ma faz pensar é sobre o “cliente”.

Ninguém gosta ou fica feliz quando alguém que se ama, por alguma ou nenhuma razão, não te ama mais, não quer mais uma relação.

Dói. E dói muito.A gente se sente rejeitado, desamparado, sem chão. E essa dor custa um bocado a passar. Nossa fantasia, e desejo, muitas vezes inconfessável, é de que o outro vai se arrepender, vai dar outra chance, vai voltar a nos amar como antes.

Mas pode não ter esse final feliz que se espera. E ser mesmo o fim.

Que sentimento é esse que recorre ao “sobrenatural” pra apagar esse The End da tela de seus quadros mentais? Posse, orgulho, onipotência. Qualquer coisa menos amor.

Quantas monstruosidades cometidas sob a justificativa do amor...

Amor é liberdade, é respeito. Nenhum amor floresce, nem mesmo sobrevive às prisões que cerceiam a alma, que pretendem acorrentar sentimentos.

A perda é algo inerente à tudo. Aceita-la talvez seja o único caminho capaz de impedir a maior de todas as perdas: a de si mesmo, da sua mínima lucidez.

mudanças

Mudanças. Sempre abalam um pouco as estruturas.

Simplesmente porque provocam inquietude, rompem a comodidade, subvertem a ordem conhecida e segura. Ainda quando se sabe que as mudanças serão pra melhor. Uma angústia misturada com um bocado de ansiedade remexe nas nossas entranhas. E a incerteza sobre o que virá, como será e como iremos nos sentir diante do novo, do desconhecido, afeta a tranqüilidade do nosso sono; e até sonhando esse sentir nos acompanha.

Mas o que seria de fato nossas vidas sem as mudanças? De dentro e de fora.

Um deserto árido, sempre a mesma paisagem. Tédio, estagnação.

Possivelmente entraríamos num processo de putrefação, como o alimento que esquecido no armário embolora, cria mofo e apodrece.

A vida exige movimento, dinamismo, renovação.

Então, quando a mudança surgir, qualquer que seja ela, apesar de tudo isso, permita-se um outro olhar. Dê uma chance ao novo. Aprenda e cresça com ele.

Apenas se dê ao direito de despedir-se do que se vai, viva esse luto, pequeno ou grande. Só haverá espaço se você deixar que o antigo fique por lá, no passado.

Leve na sua bagagem, tudo que aprendeu, o saldo positivo, a polpa suculenta e nutritiva da fruta.

A vida sempre segue em frente. Depende de nós acompanha-la ou não.

mosaico

Quis o destino que ambos se encontrassem. Clara, separada do homem que havia amado e que subitamente adoecera e morrera. De AIDS. A dor havia sido quase insuportável, mais que perde-lo ela descobrira que ele tinha transmitido à ela aquele maldito vírus. Foi como uma bomba que explodiu dentro de si abalando todas as suas estruturas. Espanto, medo, angústia, tristeza e uma raiva imensa... dele, de Deus, de si mesma. Por que ela? O que tinha feito de tão errado pra merecer esse castigo?

Clara passou por todas as fases que antecedem a aceitação. Suportou o insuportável. Lentamente foi juntando os pedacinhos, tentando em toda a sua fragilidade descobrir alguma força que a fizesse seguirem frente. O pior de tudo era calar a sua dor. Não queria que ninguém soubesse, principalmente sua mãe. Era doloroso demais imaginar o seu sofrimento. Quanto aos outros, pra que contar? Para ser julgada e condenada? Para ter sua vida exposta, sujeita ao preconceito e ignorância dos vizinhos? Justo naquela cidade tão pequena...

Encontrou acolhida junto às pessoas que se dedicavam a cuidar dela e de tantos outros. Foi com enorme resistência e cheia de dúvidas que aceitou participar de um grupo terapêutico. Tinha medo da exposição. Mas afinal aquelas pessoas estavam passando pelo mesmo que ela e já se encontravam para passar pelas consultas. Enfim aceitou o convite. Foi desse modo que conheceu Marcos. Começaram com olhares de tímido interesse e atração. Passaram a caminhar lado a lado até a casa da Clara, após as reuniões. E foram compartilhando suas histórias. Encontrando acolhida e escuta para as suas dores, apaixonaram-se. Mas tinham medo. Medo de amar, medo de perder. Como se não acreditassem merecer da vida essa chance, esse encontro.

Mas como o amor grita mais alto e invade todos os espaços, ele venceu. Namoraram. Casaram.

Tempos depois, apesar de todas as inúmeras orientações para que se prevenissem, Clara engravidou. O desejo foi muito poderoso, foi capaz de sabotar toda razão. Foi uma mistura intensa e delicada de sentimentos. Alegria, medo, culpa, ansiedade...esperança. Fez tudo o que foi necessário para que seu filho não recebesse aquela herança.

Nasceu Pedro, forte e perfeito. Clara viveu a emoção da maternidade, entristecida por não poder amamentar seu bebe, mas renovada pela vinda daquela criança tão amada. Pedro foi cuidado, tomou todas as medicações necessárias, e finalmente após 18 meses teve confirmado seu resultado de exame. Negativo. Foi uma festa, cada um daqueles profissionais que acompanharam todo o processo, não pode conter a emoção. Clara e Marcos renasceram em Pedro.

Essa é uma história verídica; os nomes, é claro, são fictícios.

Quis novamente o destino que eu revisse Clara e Marcos alguns anos depois. Agora não mais no ambulatório, mas no hospital onde eu trabalhava. Acompanhei a internação de Clara e pude estar ao seu lado até o fim. Serena, paradoxalmente, apesar da dor e do medo, estava agradecida pela vida que havia construído para si. Todos aqueles cacos deram origem a um lindo mosaico, que finalmente ela pudera admirar.

sustentação

Confia em mim, eu não te deixo cair.

Diante da angústia, da dor que vem de dentro ou de fora, da sensação caótica de não encontrar chão sob nossos pés, buscamos sustentação.

Quem nos segure, nos abrace, seja continente à nossa aflição. Desde muito pequeninos encontramos no abraço da nossa mãe, esse espaço que acolhe, segura e acalenta, transmite a tranqüilidade necessária para afugentar nossos monstros.

Toda vida buscamos de algum modo, pessoas que possam cumprir esse papel.

Nessas relações, sejam amorosas, fraternas ou familiares, ou substitutivas desses vínculos, depositamos, tal qual um bebê, nossa vida, nosso universo afetivo-emocional, numa entrega da mais absoluta confiança. Fantasia ou ilusão que cobra, muitas vezes, um alto preço.

Porque qualquer que seja a relação, e por mais bem intencionado que seja o outro, essa sustentação é impermanente, é transitória.

Ela é profundamente necessária, possibilita uma contenção à loucura na qual poderíamos nos perder. O outro é nosso referencial, nosso espelho, é a mão que nos permite não cair no abismo.

Mas...à medida que crescemos, não apenas fisicamente, mas emocionalmente, faz-se necessário que se avalie o quanto se pode confiar no outro, o tamanho da sua força, da sua capacidade de acolhimento e o tempo em que podemos agüentar que o outro nos sustente, sem perdermos nesse processo a medida da nossa própria força interna.

O outro, seja quem for, não estará lá para sempre a nos segurar.Além disso, também é humano, suscetível às próprias fragilidades. E é bom que assim seja, sob pena de ficarmos inertes e passivos. Depositando no outro toda a responsabilidade.

Algo parecido com aprender a andar de bicicleta. No início nosso pai, ou mãe, nos equilibra, empurra, ensina a pedalar. Depois as rodinhas fazem um pouco dessa função.

Chega a hora que depende de nós. Da nossa coragem, do nosso ímpeto, da nossa ousadia.

Da confiança de que vamos conseguir.

Essencial a mão que se oferece amorosamente, o abraço que absorve a nossa dor.

Ainda mais essencial que não se desmereça o enorme potencial que reside lá no mais íntimo, na semente que contém a centelha vital capaz de nos fazer seguir em frente. Apesar de.