
quarta-feira, 10 de março de 2010
(in)completude

terça-feira, 9 de março de 2010
nove

sobre o amor

além do olhar
-Quem sabe ligo pro chefe e digo que peguei dengue? Mas e se acabar pegando mesmo, afinal estamos numa baita epidemia. Não vai dar pra ter duas vezes...
Voltando do devaneio da fuga, nada a fazer senão levantar e enfrentar o dia.
Banho tomado, engole o copo de leite às pressas e assume o volante do seu pretinho básico, como carinhosamente o chama.
No caminho ao trabalho, parada no semáforo, já impaciente com o atraso que vai lhe causar problemas, assusta-se com um estrondoso barulho. Do outro lado da avenida, no cruzamento, dois carros bateram feio.
À sua volta, alguns buzinavam para que seguisse em frente, apressados como ela.
O jovem rapaz que estava ao lado da sua janela, tentando vender canetas e balas, perguntou à ela, entre assustado e ansioso:
-Será que alguém se machucou?
-Não sei, não dá pra ver. Mas a batida foi forte.
- Vou até lá tentar ajudar.
Detalhe: ele era cego.
E, movendo-se por entre os carros, guiando-se através da bengala nos pneus, lá foi ele.
Ela passou a marcha e seguiu em frente, fazendo uma pequena prece por aquelas pessoas.
Seu dia não foi mais o mesmo depois disso.
segunda-feira, 8 de março de 2010
tempo amigo

morrer

Falar de morte ou do morrer é para a grande maioria das pessoas tão angustiante e tão pavoroso que preferem viver tentando esconder a finitude da vida debaixo do tapete. Afastamos ao máximo essa idéia, criamos hospitais para que funcionem como o tapete, escondendo de nós o que se passa da dor, do medo, da angústia de chegar ao fim. Quando alguém que amamos se encontra neste doloroso processo da chamada doença terminal, ao invés de acolher, negamos a ele o direito de expressar aquilo que sente. Afastamos o mais rapidamente possível qualquer conversa que ameace tomar esse caminho, sob o falso otimismo declaramos que ele ficará bom logo e classificamos como morbidez ou depressão qualquer tentativa de falar da morte, sem sequer nos darmos conta de que na verdade ele fala de vida. Cada vez mais a ciência descobre que o melhor que se pode fazer a uma pessoa em um quadro terminal, é leva-la para casa, para estar próxima dos seus amores e amigos, no seu canto confortável e familiar. Permitir que se possa escutar a sua verdadeira voz, sem a onipotência de achar que tem que ter as respostas, a solução, a cura. Constatar a humana impotência diante da morte abre o espaço necessário à intimidade que nos aproxima na dor. Muito mais confortador é dar continência , é segurar , é oferecer e partilhar colo num abraço amoroso que nenhuma anestesia ou morfina será capaz de substituir. Faça um pequeno exercício mental, coloque-se por alguns instantes nessa condição, no lugar do outro, empatize. E mesmo angustiado por essa idéia, tolere o mal estar. E pense como gostaria de viver seus últimos dias, mesmo limitado ao leito. Aonde estaria, que pessoas estariam ao seu lado. E sobretudo o que gostaria de poder falar, escutar ou mesmo silenciar em paz, sem aquele peso das coisas não ditas por medo. Compreenda que não há nada de errado em chorar junto, em sentir-se triste. A vida nos pede coragem e isso nada tem a ver com endurecer. A coragem vem de entrar em contato com a verdade, seja ela qual for, e nos permitir todos os sentimentos e emoções que ela nos suscita.
perda insana

Um pequeno outdoor, daqueles que se colam em muros, continha o seguinte anúncio: “Perdeu seu amor? Trazemos de volta pra você. Pagamento após resultado. Tel ...”
Se aquele anúncio existe com certeza há demanda.
Como será alguém que busca este tipo de “serviço”? Que se dispõe a pagar para que seja feito um “trabalho” espiritual pra que tenha de volta um amor que partiu. Sou uma ignorante a respeito desses assuntos, não faço a menor idéia de como se realiza isso. E na verdade, prefiro continuar assim.
O que ma faz pensar é sobre o “cliente”.
Ninguém gosta ou fica feliz quando alguém que se ama, por alguma ou nenhuma razão, não te ama mais, não quer mais uma relação.
Dói. E dói muito.A gente se sente rejeitado, desamparado, sem chão. E essa dor custa um bocado a passar. Nossa fantasia, e desejo, muitas vezes inconfessável, é de que o outro vai se arrepender, vai dar outra chance, vai voltar a nos amar como antes.
Mas pode não ter esse final feliz que se espera. E ser mesmo o fim.
Que sentimento é esse que recorre ao “sobrenatural” pra apagar esse The End da tela de seus quadros mentais? Posse, orgulho, onipotência. Qualquer coisa menos amor.
Quantas monstruosidades cometidas sob a justificativa do amor...
Amor é liberdade, é respeito. Nenhum amor floresce, nem mesmo sobrevive às prisões que cerceiam a alma, que pretendem acorrentar sentimentos.
A perda é algo inerente à tudo. Aceita-la talvez seja o único caminho capaz de impedir a maior de todas as perdas: a de si mesmo, da sua mínima lucidez.
mudanças

Mudanças. Sempre abalam um pouco as estruturas.
Simplesmente porque provocam inquietude, rompem a comodidade, subvertem a ordem conhecida e segura. Ainda quando se sabe que as mudanças serão pra melhor. Uma angústia misturada com um bocado de ansiedade remexe nas nossas entranhas. E a incerteza sobre o que virá, como será e como iremos nos sentir diante do novo, do desconhecido, afeta a tranqüilidade do nosso sono; e até sonhando esse sentir nos acompanha.
Mas o que seria de fato nossas vidas sem as mudanças? De dentro e de fora.
Um deserto árido, sempre a mesma paisagem. Tédio, estagnação.
Possivelmente entraríamos num processo de putrefação, como o alimento que esquecido no armário embolora, cria mofo e apodrece.
A vida exige movimento, dinamismo, renovação.
Então, quando a mudança surgir, qualquer que seja ela, apesar de tudo isso, permita-se um outro olhar. Dê uma chance ao novo. Aprenda e cresça com ele.
Apenas se dê ao direito de despedir-se do que se vai, viva esse luto, pequeno ou grande. Só haverá espaço se você deixar que o antigo fique por lá, no passado.
Leve na sua bagagem, tudo que aprendeu, o saldo positivo, a polpa suculenta e nutritiva da fruta.
A vida sempre segue
mosaico
Quis o destino que ambos se encontrassem. Clara, separada do homem que havia amado e que subitamente adoecera e morrera. De AIDS. A dor havia sido quase insuportável, mais que perde-lo ela descobrira que ele tinha transmitido à ela aquele maldito vírus. Foi como uma bomba que explodiu dentro de si abalando todas as suas estruturas. Espanto, medo, angústia, tristeza e uma raiva imensa... dele, de Deus, de si mesma. Por que ela? O que tinha feito de tão errado pra merecer esse castigo?
Clara passou por todas as fases que antecedem a aceitação. Suportou o insuportável. Lentamente foi juntando os pedacinhos, tentando em toda a sua fragilidade descobrir alguma força que a fizesse seguir
Encontrou acolhida junto às pessoas que se dedicavam a cuidar dela e de tantos outros. Foi com enorme resistência e cheia de dúvidas que aceitou participar de um grupo terapêutico. Tinha medo da exposição. Mas afinal aquelas pessoas estavam passando pelo mesmo que ela e já se encontravam para passar pelas consultas. Enfim aceitou o convite. Foi desse modo que conheceu Marcos. Começaram com olhares de tímido interesse e atração. Passaram a caminhar lado a lado até a casa da Clara, após as reuniões. E foram compartilhando suas histórias. Encontrando acolhida e escuta para as suas dores, apaixonaram-se. Mas tinham medo. Medo de amar, medo de perder. Como se não acreditassem merecer da vida essa chance, esse encontro.
Mas como o amor grita mais alto e invade todos os espaços, ele venceu. Namoraram. Casaram.
Tempos depois, apesar de todas as inúmeras orientações para que se prevenissem, Clara engravidou. O desejo foi muito poderoso, foi capaz de sabotar toda razão. Foi uma mistura intensa e delicada de sentimentos. Alegria, medo, culpa, ansiedade...esperança. Fez tudo o que foi necessário para que seu filho não recebesse aquela herança.
Nasceu Pedro, forte e perfeito. Clara viveu a emoção da maternidade, entristecida por não poder amamentar seu bebe, mas renovada pela vinda daquela criança tão amada. Pedro foi cuidado, tomou todas as medicações necessárias, e finalmente após 18 meses teve confirmado seu resultado de exame. Negativo. Foi uma festa, cada um daqueles profissionais que acompanharam todo o processo, não pode conter a emoção. Clara e Marcos renasceram em Pedro.
Essa é uma história verídica; os nomes, é claro, são fictícios.
Quis novamente o destino que eu revisse Clara e Marcos alguns anos depois. Agora não mais no ambulatório, mas no hospital onde eu trabalhava. Acompanhei a internação de Clara e pude estar ao seu lado até o fim. Serena, paradoxalmente, apesar da dor e do medo, estava agradecida pela vida que havia construído para si. Todos aqueles cacos deram origem a um lindo mosaico, que finalmente ela pudera admirar.
sustentação

Confia em mim, eu não te deixo cair.
Diante da angústia, da dor que vem de dentro ou de fora, da sensação caótica de não encontrar chão sob nossos pés, buscamos sustentação.
Quem nos segure, nos abrace, seja continente à nossa aflição. Desde muito pequeninos encontramos no abraço da nossa mãe, esse espaço que acolhe, segura e acalenta, transmite a tranqüilidade necessária para afugentar nossos monstros.
Toda vida buscamos de algum modo, pessoas que possam cumprir esse papel.
Nessas relações, sejam amorosas, fraternas ou familiares, ou substitutivas desses vínculos, depositamos, tal qual um bebê, nossa vida, nosso universo afetivo-emocional, numa entrega da mais absoluta confiança. Fantasia ou ilusão que cobra, muitas vezes, um alto preço.
Porque qualquer que seja a relação, e por mais bem intencionado que seja o outro, essa sustentação é impermanente, é transitória.
Ela é profundamente necessária, possibilita uma contenção à loucura na qual poderíamos nos perder. O outro é nosso referencial, nosso espelho, é a mão que nos permite não cair no abismo.
Mas...à medida que crescemos, não apenas fisicamente, mas emocionalmente, faz-se necessário que se avalie o quanto se pode confiar no outro, o tamanho da sua força, da sua capacidade de acolhimento e o tempo em que podemos agüentar que o outro nos sustente, sem perdermos nesse processo a medida da nossa própria força interna.
O outro, seja quem for, não estará lá para sempre a nos segurar.Além disso, também é humano, suscetível às próprias fragilidades. E é bom que assim seja, sob pena de ficarmos inertes e passivos. Depositando no outro toda a responsabilidade.
Algo parecido com aprender a andar de bicicleta. No início nosso pai, ou mãe, nos equilibra, empurra, ensina a pedalar. Depois as rodinhas fazem um pouco dessa função.
Chega a hora que depende de nós. Da nossa coragem, do nosso ímpeto, da nossa ousadia.
Da confiança de que vamos conseguir.
Essencial a mão que se oferece amorosamente, o abraço que absorve a nossa dor.
Ainda mais essencial que não se desmereça o enorme potencial que reside lá no mais íntimo, na semente que contém a centelha vital capaz de nos fazer seguir