segunda-feira, 29 de março de 2010

Náufragos

Deitados lado a lado, na mesma cama, pés encostados sob brancos lençóis, único sinal de ligação entre aqueles corpos, abraçados a seus travesseiros. No abismo dos anos só restara aquele contato furtivo, quase destituído de calor humano. Apenas bóia, transformada em âncora sorrateiramente no escorrer do tempo. Náufragos de um amor sonhado. Quarto cuidadosamente arrumado, porta retrato dos filhos sobre o criado mudo, livros empilhados, rádio relógio sobrevivente das pancadas nas manhãs sobressaltadas, e um suave perfume de lavanda. Seus olhos percorriam lentamente os objetos, num misto doloroso de saudade antecipada e ânsia de gravar-lhe os detalhes. Deliberadamente afastou seus pés do contato com aquele homem que tanto amara. Onde foi que se perderam? Havia uma paixão pungente, que incendiava qual rastilho de pólvora a um simples olhar... Havia uma ternura envolvendo todos os seus gestos e um desejo revestido em dádivas de prazer ao bem amado. Uma querência de contar seu dia, de ouvir-lhe histórias, de compartilhar escolhas. Seu sonho nutrido diariamente era amar aquele homem até o fim de seus dias. Assim se saberia feliz. Tão simples a vida lhe parecia. Agora sentia-se infantil por imagina-la como um conto de fadas. Alimentou-se de ilusões de tal modo que a vida fora posta na prateleira. Como o porta retrato do lindo casal, sorrindo a felicidade de um amor a dois. Foto. Momento. Recorte congelado de tempo.

Esquecera desligado o freezer. Derretido, esvaiu-se entre dedos...

terça-feira, 23 de março de 2010

o poder da energia

Estava ansiosa e tensa, até dispensou o café naquela manhã, preferindo um chá. Diziam que era relaxante. Sempre havia sido daquelas pessoas muito serenas, que evitava discussões e conflitos. Na verdade fugia deles. Mas agora não tinha jeito, era chefe e não poderia se furtar de sua responsabilidade. Essa era a pior parte, ter que "chamar a atenção" de uma funcionária que estava causando vários problemas na equipe. Ela com apenas 34 anos e a pessoa em questão 15 anos mais velha, com temperamento agressivo, antiga no setor e de certa forma "protegida" politicamente, ninguém conseguia transferí-la dali.

Com tudo isso em mente, pediu que viesse até a sua sala e fechou a porta. Calma, mas de modo firme, expos os transtornos que havia causado com seu comportamento, prejudicando o trabalho e os colegas de equipe, enfim as questões necessárias a serem resolvidas. Durante a sua fala, observou a forte tensão em seu rosto, a postura armada de seu corpo sobre a cadeira, e a sensação que tinha era a de que se pudesse, ela teria voado em seu pescoço. Seu olhar destilava mais que raiva, era um ódio quase incontido.

Apesar de perceber toda essa comunicação não verbal, conseguiu manter-se aparentemente calma, pelo menos o bastante para não alterar sua voz, sua postura e menos ainda o que havia se proposto a dizer. Claro, por dentro havia um turbilhão, justo ela que detestava conflito...

Ao terminar sua fala, tudo isso não durou mais que 5 minutos, disse que gostaria de ouvir o que ela teria a dizer de tudo aquilo.

Exatamente no instante em que a funcionária abriu a boca para falar, ouviu-se um forte estalo. Ambas se assustaram e olharam em direção ao local de onde veio o ruído.

Um vaso da planta conhecida como Comigo Ninguém Pode, cujo caule, da grossura de um diâmetro de 7 cm, partira-se inteiramente ao meio.

A funcionária diz assustada:

- Nossa, credo, que foi isso?

Ao que ela sorri e responde:

- Ainda bem que a sua raiva atingiu a planta e não a mim.

Depois dessa experiencia ela nunca mais duvidou do poder da energia. E sempre tem um vasinho de planta por perto...

domingo, 21 de março de 2010

em busca

Passamos a vida toda “em busca de”. É constante a nossa insatisfação. Se por um lado ela nos move, e isso tem um caráter positivo, por outro ela nos ilude e sabota.

Aquela famosa frase de colocarmos a felicidade sempre onde não estamos.

Se estamos finalmente fazendo a viagem dos nossos sonhos, logo a felicidade passa a ser a volta à nossa casa, à nossa cama e o nosso arroz com feijão passa a ser mais saboroso e desejado que o mais sofisticado prato francês.

Se estamos casados, desejamos a liberdade da vida de solteiros, e se solteiros queremos nos prender numa vida a dois bem rotineira.

Se os filhos cresceram, nos queixamos que era tão gostoso quando pequenos. E quando crianças, não vemos a hora de vê-los crescidos.

Estudantes, ansiamos o profissional. Para logo sentirmos falta daqueles bons tempos de faculdade.

Trabalhando, almejamos a aposentadoria. Para logo nos cansarmos dela e irmos em busca de alguma atividade, porque não agüentamos ficar sem trabalhar.

Quanto perdemos de vida. De tempo.De felicidade.

E a vida passa. O tempo passa.

E a felicidade ?

Bem, quem sabe na outra vida...

sábado, 20 de março de 2010

Sinal verde


Cronica escrita a partir da frase "Sinal verde, atravessei pra lá do sol" de uma música de Sérgio Ricardo. Exercício do Laboratório do Escritor.

Em mais da metade da minha vida tudo que tive foram imensos sinais vermelhos. Não, você não pode seguir em frente. Você tem obrigações. Você é mulher, tem que obedecer seu pai. Depois virou “seu marido”. Você tem que criar seus filhos. Cuidar da casa, do marido, das finanças, da empregada, do supermercado, do cachorro. Quem sabe lá, no fim da fila, sobrando um tempinho, você se cuida um pouco.

O tempo passou. Os filhos gradativamente foram tomando seu rumo, tornaram-se bons profissionais, pessoas de bem, fizeram suas escolhas amorosas e formaram suas próprias famílias. Assim como deve ser, afinal nós os criamos para a vida ou para alimentar egoisticamente as nossas carências? Tudo bem que muitas vezes, ou quase sempre, não gostamos muito de algumas dessas escolhas, mas a vida é mesmo deles, assim como os erros e acertos. Levamos um bocado de tempo e sofrimento pra aprender a lidar com isso.

Quanto ao marido, bem, fiz o que me mandaram. Segui as regras, cuidei dele, fechei os olhos muitas vezes, engoli a mágoa e engavetei a raiva. O sinal vermelho sempre presente.

Até que um dia ele se foi. Literalmente. Teve um enfarte fulminante. Detalhe: transando com a amante num luxuoso motel da cidade. Desgraçado. Eu tinha que economizar até na pasta de dente.

Abriu o sinal amarelo. A essa altura do campeonato eu já contava 62 anos. Tinha 5 lindos netos, adoráveis. De vez em quando, a minha filha caçula inventava de viajar com o marido, pra apimentar a relação e deixava os 2 pequenos comigo. Eu os adoro, mas ficava exausta. Não conseguia negar, achava que era minha obrigação. Também não me permitia sair à noite com as amigas pra dançar, paquerar. Imagina, que absurdo, na minha idade... Só um cineminha, uma viagem pra Águas de São Pedro, Pousada do Rio Quente. Sinal amarelo.

Aos 70 anos,me libertei. Me apaixonei por um gato maravilhoso de 65 anos, um garotão cheio de vida, bem humorado, culto, também viúvo. Estamos nos descobrindo e curtindo a vida juntos, parecemos adolescentes no encantamento. Mas saboreamos melhor do que eles porque valorizamos o tempo e aprendemos muito. O sexo? Nunca soube antes o que era prazer. O amor e o tesão, e uma pilulazinha azul, dão um jeitinho em tudo.

Sinal verde, atravessei pra lá do sol, na Ilha de Santorini, na Grécia, onde sempre desejei ver o céu tingir-se de vermelho...

sexta-feira, 19 de março de 2010

amor x poder

A obstinação de estar certo, de vencer discussões e disputas, é tão somente um esconderijo. Onde se refugia a insegurança sob as vestes da suposta autoridade, de quem pretende ver aceitos seus argumentos de qualquer maneira, mesmo que sob ameaça e imposição. Estabelece dicotomias: um é forte o outro fraco, um certo outro errado, um algoz outro vítima, um sujeito outro objeto...

De que modo uma relação se constrói ou se mantém nessa perspectiva? A isso podemos chamar amor? Ou algo patológico sob um disfarce socialmente aceitável?

Relações desiguais. E não se trata de idade, cor da pele, religião, nada disso. É outro o significado. O de um sobreposto ao outro, num acordo tacitamente velado em que um se considera o dono do outro, de seus pensamentos, atitudes, decisões. E outro que permite-se dissolver no parceiro, deixando sua própria existencia em mãos alheias.

O amor maduro e verdadeiro dá as mãos, caminha junto, segura nos tropeços, alternadamente um e outro mostra-se generoso e desprendido. Alegra-se com os voos solitários do parceiro a alcançar montanhas cada vez mais altas. Compreende e acolhe docemente suas dores. Respeita as escolhas individuais. Permanece livre.

Amor verdadeiro portanto é conquista construída e sedimentada no tempo, com o frescor de águas cristalinas fluindo através de mútua reciprocidade.

Ninguém perde. Todos ganham.

quinta-feira, 18 de março de 2010

espelho


Sou inteira, íntegra e verdadeira
Quero transparencia do outro
Doce, quero adoçar a vida ao meu redor
Profundamente amorosa
Não compreendo a vida sem amor
Amor que flui, envolve e penetra como a água
Alcança oceanos e raízes
Sou flexível como o bambu
As tempestades me fazem vergar
Mas não me derrubam, e me fazem mais forte
Conciliadora, prefiro o diálogo do entendimento aos berros da raiva
Só pra provar quem tem razão...
Prefiro a perda que ensina do que o ganho que ilude
Na certeza divina de que ambas coexistem para nossa evolução
Quero amor com paixão e não paixão sem amor
Quero um encontro no tempo da delicadeza
A ternura de um olhar
A mão que afaga e segura
A ética, a honra e a intenção que moldam o caráter
Muito além do discurso...da palavra...da atitude...
"A espinha ereta, o coração tranquilo"
Quero a sabedoria da escolha certa
Diante de todas as oportunidades
Aquelas que me façam melhor
Que me inquietem pelas incertezas
E me desafiem a descobrir tesouros dentro de mim
Quero a paz de quem soube seguir seu coração
E dormir serenamente todas as noites
E amanhecer aquecida pela esperança
Renovada para novas paisagens...

quarta-feira, 17 de março de 2010

palavras

São tantas palavras em burburinho
como se subitamente todas descobrissem ter voz
e desatassem a falar enlouquecidas
Preciso do silencio
para escutá-las mansamente
compreender seu significado
e traduzir sua emoção
tentando compor entre elas e o silencio
uma melodia literária

Palavras respiram silencio

"Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas".

Clarice Lispector

academia para a alma


Sou dessas pessoas que segue a vida acreditando, até mesmo nos momentos de escuridão. Uma fé que nem sei de onde vem, mas que me sustenta sempre que perco o chão. E não foram poucas as vezes em que estive perdida de mim mesma nesse labirinto insano em que a vida sabiamente nos coloca. De que outro modo poderia sair da mesmice, do conforto das coisas vividas? Como iria em busca de outros caminhos se não mudasse olhar, se não o deslocasse para o alto e para além da estrada percorrida? É dessa amplidão que descubro o aprendizado possível através de cada dor, de cada desencontro, cada lágrima e até de toda decepção que parecia dilacerar minha alma. Ao contrário, tudo isso fortaleceu o que em mim era mais frágil, mais carente de exercício, músculo frágil e inerte. Academia para a alma... exercitar viver.

terça-feira, 16 de março de 2010

beleza que faz amar


"Amar é qualquer coisa de mais grave e significativo do que
o entusiasmo pelas linhas de um rosto e a cor de uma face;
é decidirmo-nos por um certo tipo de ser humano
que é simbolicamente anunciado nos pormenores do rosto,
da voz e dos gestos.
O amor é uma escolha profunda. "
José Ortega y Gasset
" A beleza que seduz dificilmente coincide
com a beleza que faz amar."
Essa é uma adaptação da frase de Ortega y Gasset

segunda-feira, 15 de março de 2010

envelhecer


Envelhecer.
O corpo e a mente lentamente evoluem num processo decrescente,
e por mais que o espírito mantenha-se ativo e jovem,
sente-se o peso das coisas em que o corpo já não responde mais como antes.
Os cabelos ficam brancos, a pele perde o viço , os músculos perdem força e rigidez.
Perdas. Naturais mas dolorosas.
Há ganhos. Experiência, sabedoria, tolerância,
acompanhar a história de filhos e netos, vibrar com suas conquistas
e ofertar colo e orientação nas horas difíceis.
Agora invertem-se os papéis.
É chegada a hora em que os filhos tornam-se pais dos pais.
E será preciso muito afeto, compreensão e paciência
para lidar o melhor possível com essa nova fase.
Aos filhos, a dedicação e tolerância para com as dificuldades da idade,
a lentidão, as idas frequentes aos médicos,
o entendimento de que será necessário retribuir amorosamente
tudo aquilo que receberam quando bebês e crianças,
em termos de tempo, esforço e paciencia.
Aos pais a compreensão de que os filhos lutam as lutas diárias,
de trabalho e sobrevivencia, de cuidados e preocupações com seus filhos.
E, ao casal que teve seu casamento salvo dos desgastes de décadas,
a força e o amor que possibilitem compartilhar das dores, dos medos, das perdas.
A mansidão de alma a tornar a vida mais leve.

Inevitavelmente a vida trará momentos de extrema dor,
que vai demandar uma capacidade maior de enfrentamento e superação.
Enquanto esse momento não chega,
a gente precisa aprender a viver com alegria, com prazer,
privilegiando os espaços em que os afetos possam ser vivenciados,
o trabalho possa trazer a gratificação de se saber útil
e as oportunidades de realizar sonhos possam ser agarradas com fé.